Quando alguém fala a um psicanalista confessa ou confia o seu sofrimento? Este, ao escutar aquele que lhe dirige a palavra, deve lembrar ou esquecer do que aprendeu em sua própria análise? A capacidade de redescobrir a própria fala se mantém ou se perde ao longo da vida?
Questões como estas, supostamente anódinas diante do sofrimento humano, não só permitem o estabelecimento de pontos de referência fundamentais para a formação do psicanalista, como também contribuem para que esta mantenha seu caráter permanente, pois, retomadas à luz dos efeitos clínicos, não deixam que a escuta se acomode ao que já se sabe e não basta para que a experiência analítica encontre seu termo.
O modo como um psicanalista se forma, estruturado ainda hoje segundo o tripé análise pessoal, ensino teórico e supervisão clínica, tem dois pontos de inflexão fundamentais: a suposta iminência da morte de Freud após ter descoberto o câncer que lhe retiraria a vida e a ação de Lacan sobre o legado freudiano e seus desdobramentos. Sem a análise desses pontos, a repetição estandartizada da prática clínica parece ganhar autonomia e se desvincular das questões humanas que continuam a fazer com que as pessoas procurem um psicanalista.
Os textos aqui reunidos mapeiam a história e a estrutura da formação do psicanalista, bem como demarcam as principais balizas da análise, do ensino e da supervisão relacionados a ela. Seu conjunto certamente é referência fundamental para o tema e deve interessar tanto a quem fala como a quem escuta palavras que, transferidas, deixam de ser o que pareciam e se põem a nos transformar.
SUMÁRIO
Introdução
Marco Antonio Coutinho Jorge
HISTÓRIA E ESTRUTURA DA FORMAÇÃO
A questão da formação do psicanalista para Lacan
Alain Didier-Weill
Sobre a história da formação dos analistas
Catherine Millot
Retraimento individual e mal-estar coletivo
Elisabeth Roudinesco
Um tratamento letal. Sobre o Consórcio Psicanalítico
Ona Nierenberg
Algumas considerações relativas ao Relatório do Consórcio Psicanalítico sobre a Formação Analítica.
Carta aberta aos colegas americanos
Paola Mieli
Análise leiga: mais, ainda
Ana Vicentini de Azevedo
A formação ortodoxa
Alain Didier-Weill
Lacan e a estrutura da formação psicanalítica
Marco Antonio Coutinho Jorge
ANÁLISE
Por um lugar de insistência
Alain Didier-Weill
Forma e figura da transferência
Jean-Michel Vives
Viver a pulsão, mais-além da fantasia
Jean Charmoille
Os paradoxos do gozo e o fim da análise
Nadiá Paulo Ferreira
O psicanalista amador e os três desejos. Sobre o desejo do analista
Sonia Leite
A pirâmide das heresias. a ética na clínica psicanalítica infantil
Teresinha Costa
Criança e discurso
Claude Dumézil
Qual é a lógica do tempo lógico?
Lucia Maria de Freitas Perez
Jacques Lacan e a renovação da clínica psicanalítica.
Sobre o impacto de seu ensino no Brasil
Marco Antonio Coutinho Jorge
ENSINO
A passarela
Alain Didier-Weill
Um estranho no ninho ou a psicanálise na universidade
Denise Maurano
O cartel e o desejo de saber na Escola
Sonia Leite
Gesto analítico, ato criador: Duchamp com Lacan
Tania Rivera
A transmissão da psicanálise
Philippe Julien
O desejo de saber como laço entre analistas.
Um comentário sobre “Nota italiana”
Marco Antonio Coutinho Jorge
SUPERVISÃO
Sobre o controle e o autorizar-se
Alain Didier-Weill
Caminhos e descaminhos da supervisão em psicanálise
Laéria B. Fontenele
Respostas a algumas questões relativas à supervisão
Moustapha Safouan
Aprender a aprender. Lacan e a supervisão psicanalítica
Marco Antonio Coutinho Jorge
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