A paisagem no cinema de Wim WendersO baldio som de Deus
Nauro Machado
Desenhos João Sánchez
304 p. | 2015 | 16 x 23 cm | 1ª edição | 978-85-7740-185-7

R$ 50,00

"O livro em suas mãos, caro leitor, composto de 240 sonetos, é o oitavo de Nauro Machado a se valer apenas dessa forma de composição poética, dando seguimento a uma porção da obra em que sua dicção insiste em pronunciar-se, a um só tempo, pela anuência e pela dissolução métricas e rítmicas. Tal insistência, assim, não apenas alumia a língua, ao revelar surpreendentes associações entre sons e sentidos, como também traz outra vez à cena o silêncio inevidente sob as palavras lidas.
Em campo ampliado, os versos de O baldio som de Deus, distribuídos pelas oito subdivisões que o ordenam, modulam semanticamente tanto os sonetos de O cirurgião de Lázaro, de 2010, quanto os poemas de Percurso de sombras, de 2013. Sem prejuízo à marca temporal de um ofício que se vem tecendo de maneira ininterrupta desde Campo sem base, de 1958, alargam e aguçam ainda mais a recorrência dos temas pelos quais o poeta se põe a mentalmente compor e, depois, escrever.
De sua parte, os desenhos de João Sánchez que os acompanham, dispostos ao lado do rosto e em duas sequências entremeadas, de 28 imagens verticais e de sete imagens horizontais, com as quais se demarcam as passagens de um tema a outro, acrescentam ao corpo do livro elementos de uma narrativa própria, destituída de preocupações ilustrativas. Seus tons e traços ásperos, mesmo que sujeitos à aguagem do nanquim, mais revelam do que omitem o ofício de impressor de seu autor, projetando, de maneira subliminar, o trânsito entre estar à frente ou à margem do que se cria.
Ao fim dessa partilha, a pedra não cabe ao poeta. A este continuam a restar dois obstáculos irresolúveis, ambos inseparáveis de sua jornada rumo à morte: o primeiro deles, a condição subjetiva de sua divisão, que, mesmo aparentemente próxima, ausenta-se de seu íntimo sem abandoná-lo e se mantém presente, a despeito do caminho seguido; o segundo, a força ascendente do verbo, pela qual o ser falante assume sua posição ereta, mas se mantém em imorredoura tensão com a ação empregada nos pés, servidos de base ou ponto de ruína.
Não por acaso, tal caráter duplamente incontornável da existência, inclusive a poética, pode ser de pronto apreendido no inédito, mas não soneto, que se lê na contracapa deste livro: sem saber por que vive a alimentar seus poemas, o poeta, sabendo nutrir-se deles, conjuga à sua própria finitude a causa póstuma que ainda lhes faz nascer."

Luiz Eduardo Meira de Vasconcellos