Os intelectuais e a naçãoCorreio político. Os brasileiros escrevem a democracia (1985–1988)
Maria Helena Versiani
304 p. | il. color. | 2014 | 15,5 x 23 cm | 1ª edição | 978-85-7740-165-9


R$55,00

Quatrocentas e vinte e quatro cartas – cartas pessoais –, manuscritas, enviadas por 389 missivistas (34 deles escreveram, cada um, mais de uma carta) de diferentes localidades do país, em suporte de papel de carta e também de outro tipo, denominado por Maria Helena Versiani “papéis diversos”. Cartas enviadas a autoridades políticas por brasileiras e brasileiros, que, individualmente e com considerável autonomia e liberdade de expressão, abraçaram a escrita epistolar como forma de participação política relevante nos anos de abertura democrática e reconstitucionalização do país, de 1985 a 1988, quando estava em pauta o projeto de uma nova República que desse fim ao regime autoritário instituído no país com o golpe civil-militar de 1964. Um momento, portanto, de renovação política, que podia garantir, para todos os cidadãos do país, uma nova agenda de direitos.
Essas cartas foram objeto privilegiado da pesquisa realizada pela autora, historiadora do Museu da República, em sua tese de doutorado, defendida no Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais do Centro de Pesquisa e Documentação em História Contemporânea do Brasil (Cpdoc), da Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro, em 2013, sob a orientação da professora Angela Maria de Castro Gomes. Seu objetivo foi, especificamente, reconhecer o que tais cartas, escritas pelos chamados homens/mulheres comuns, enunciavam sobre o tema dos direitos de cidadania ou, em outra formulação, do papel do Estado ante as demandas da sociedade.
As cartas estão arquivadas na Coleção Memória da Constituinte, acervo do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República, que reúne documentos, produzidos entre 1985 e 1988, relativos ao processo que conduziu à elaboração da atual Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 5 de outubro de 1988. Esses documentos foram acumulados por duas diferentes instâncias da administração pública, criadas durante e em razão do processo Constituinte: a Comissão Provisória de Estudos Constitucionais (cec) – ou Comissão dos Notáveis ou Comissão Afonso Arinos – e o Centro Pró-Memória da Constituinte (cpmc), vinculado à ex-Fundação Nacional Pró-Memória.
Trabalhando desde 1997 no Museu da República, primeiro no Setor de Arquivo Histórico e Institucional e depois no Setor de Pesquisa Histórica, entre 2007 e 2010, como assessora em Pesquisa Histórica, Maria Helena Versiani coordenou o projeto Constituição de 1988: a voz e a letra do cidadão/Cidadania em debate, sobre os vinte anos da Constituição Federal de 1988. Nessa oportunidade, surgiu seu interesse em realizar este livro. E vale lembrar que, durante o desenvolvimento do projeto, ela coordenou a publicação do livro A voz e a letra do cidadão, que recolheu e analisou várias “cartas” depositadas pelos visitantes numa urna, na última sala da exposição, com opiniões sobre essa Constituição Brasileira.
Como se verá, a historiadora Maria Helena Versiani percebe a função do museu no sentido de, por meio de seus acervos museológico, arquivístico e bibliográfico, organizar-se para a produção do conhecimento, e dessa forma atua no Museu da República. O presente livro é um bom exemplo.

Magaly Cabral
Pedagoga, museóloga, mestre em Educação
e diretora do Museu da República




SUMÁRIO

Prefácio

Introdução


I. O MOMENTO CONSTITUINTE

Por uma nova Constituinte no Brasil!
       À sombra do autoritarismo, uma abertura para a Constituinte
       A sociedade se organiza para exigir direitos: o Movimento Social pela Anistia e pela Constituinte
       Anistia, Diretas, Constituinte Já!

“Quero entender um pouco da constituinte”: a participação política do povo brasileiro
       A sociedade brasileira e a Constituinte
       Constituinte congressual ou exclusiva?
       Por uma cultura política participativa
       A Comissão Afonso Arinos

ii. escrever para a constituinte

Coleção Memória da Constituinte em cartas
       O acervo memória da Constituinte
       Escrever cartas
       Cartas de uma Coleção
              Volume e data
              Missivista e destinatário
              Local de origem
              Materialidade das cartas
              Meios de escrita
              Amostra de cartas da análise

Páginas da participação política, escritas do cotidiano
       “Como não tenho recursos financeiros para ajudar a nova república, tento contribuir com minhas idéias”
       “Não tive primário completo, mas entendo alguma coisa da situação do país”
       “Ganho o salário mínimo para fazer tudo, pagar aluguel, comida, roupas e remédios p/ crianças”
       “Vocês que foram eleitos por nós estão aí para defender nossos direitos”
       “Um país deve ser governado com sabedoria e essa tem que vir de Deus”
       “Eu não amo meu marido”
       “Se vocês quizer mandar uma ajuda em meu nome ate que eu não enjeiava não. Já faz mais de ano que não trabalho”
       “Acho que é mais lógico me comunicar do que guardar para mim o que talvez convinha que fosse dito”

Percepções de cidadania
       “Que a justiça se estenda a todos, se não nunca vai haver a tal paz falada, como se diz o povo em geral”
       “Sou uma pessoa sem pai não tenho nem siquer uma casa pra mora não tenho imprego”
       “Vamos criar condições para que eles crie sua família”
       “Hoje estamos quase a passar fome, já não podemos sonhar sequer com a casinha própria”

Conclusão

Referências