Os intelectuais e a naçãoEducação para manejo do mundo. Entre a escola ideal e a escola real no Alto Rio Negro
Gersem José dos Santos Luciano
229 p. | 2014 | 16 x 23 cm | 1ª edição | 978-85-7740-151-2



R$44,00



Encontra-se neste livro, fruto da primeira tese de doutorado em antropologia defendida por um indígena no Brasil, uma notável e precisa análise da percepção dos povos indígenas do Alto Rio Negro, em especial dos Baniwa, acerca da importância da educação e da escola para a sua autonomia política. Precedida por um depoimento de natureza biográfica, em que se aprende que o autor avança em seu campo de estudos sem se furtar seja às inúmeras restrições historicamente impostas a esses povos pela colonização portuguesa e pela sociedade e o Estado brasileiros, seja aos bons acasos da vida, a precisa e notável análise interliga duas vias principais: de um lado, a contextualização da atual escola indígena no que se passou ao longo dos últimos cem anos, desde a atuação dos missionários salesianos na educação e na civilização dos povos indígenas dessa região do estado do Amazonas; do outro, a desconstrução, à luz do percurso sociopolítico de tais povos, de diversos preceitos que têm orientado a oferta educacional pública intercultural, bilíngue e diferenciada que se tornou parte dos direitos indígenas garantidos pela Constituição Federal de 1988.
Da trajetória de Gersem Luciano tecida da saída de sua aldeia natal para estudar em regime de internato com os salesianos, aos 12 anos de idade, passando pela coordenação geral da educação escolar indígena no Ministério da Educação e a articulação da I Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena, até o seu doutoramento e a aprovação em concurso para professor da Universidade Federal do Amazonas, sobressai-se a persuasão de que a apropriação de bens e conhecimentos técnico-científicós da cultura ocidental pelos povos indígenas pode ser de enorme valia para a vida que têm. A essa lição, todavia, devem-se aliar tanto a convergência de seus diferentes interesses e projetos associativos quanto o exercício, sempre que possível, de funções e cargos públicos municipais, estaduais e federais que permitam conferir maior equilíbrio à desigual realidade interétnica no país.
A despeito das sequelas de séculos de dominação, exploração e espoliação, Luciano demonstra como os povos indígenas que analisa focam, sobretudo por intermédio da educação, seja o reconhecimento de sua cidadania e os direitos políticos e territoriais já conquistados, seja a autonomia em construir o próprio futuro, sem que isso corresponda a abrir mão do relevante papel das famílias e dos valores míticos e cosmológicos pelos quais se singularizam. A verdadeira resistência dos índios, como ele nos ensina, é política e não somente cultural, motivo pelo qual a constante busca de diálogo e reciprocidade tende a favorecer o seu manejo do mundo, notadamente o “civilizado”, bem como a legitimar e tornar mais conhecidas as inúmeras contribuições que já deram à formação e à consolidação do Brasil.