AtlantidaOs intelectuais e a cidade. Séculos XIX e XX
Magali Gouveia Engel, Maria Letícia Corrêa e Ricardo Augusto dos Santos [org.]
256 p. | 2012 | 15,5 x 23 cm | 1ª edição | 978-85-7740-136-9


R$50,00

Escrever orelhas é perigoso, pois elas, além de dizer, escutam. Afinal, são orelhas. Se só escutassem, tudo bem! A questão é que anunciam em voz, mais do que alta, o conteúdo daquilo de que fazem parte. É pelas orelhas que se conhecem os livros. Elas decidem os destinos de um livro. Desse modo, são perigosas. Mas não neste livro. A qualidade e o esmero da seleção de textos realizada pelos organizadores provocam uma sensação de bem-estar. Resultado de longo trabalho de pesquisa em torno do tema os intelectuais e cidade, desenvolvido no grupo de estudos e pesquisas Intelectuais, Sociedade e Política, esta primeira coletânea apresenta a complexidade dos estudos inicialmente apresentados em seminário promovido na Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Os capítulos se sucedem numa cascata de discussões sobre a modernidade carioca, juntando a história com a literatura e a sociologia, bem como problematizando autores e interpretando questões. Nesses termos, a coletânea pode ser lida em três chaves distintas. A primeira delas envolve questões conceituais e teóricas que não se resumem a mais uma reflexão sobre a cidade. Em vez disso, procuram um rumo que leve à criação de um terreno de especificidades para o estudo das cidades, por exemplo, a elaboração de um campo em que a interdisciplinaridade se constitua como veículo para algo que transcenda as disciplinas que tradicionalmente olham para elas.
A segunda chave discute ideias e representações referentes ao mundo do trabalho na cidade do Rio de Janeiro. A popularização das letras numa sociedade marcadamente oral, “as casas para operários”, à luz dos choques ideológicos provenientes de um projeto de modernidade capitalista e das posições paternalistas vinculadas à reprodução da força de trabalho, e as representações dos intelectuais acerca das habitações populares e suas consequências na produção de políticas públicas são os seus principais temas.
Por fim, a terceira chave se volta para três intelectuais literatos que, em tempos distintos, deram a ver a mesma cidade: Olavo Bilac, Lima Barreto e Rachel de Queiroz. Do primeiro sublinha-se sua condição de “poeta-sociólogo” e de radical defensor das “picaretas de ouro” do prefeito Pereira Passos. O segundo tem ressaltado seu papel de um cronista do social que denuncia as falsas fantasias do novo, ao passo que da última são relidas as crônicas escritas para a revista O Cruzeiro, tendo como pano de fundo a perda da condição de capital do País para Brasília.
Tais são os argumentos que estas orelhas podem apresentar. Há muitos outros, caros leitores, mas acho que bastam. Agora, só resta a vocês mergulhar nos textos e saborear os saberes sobre a cidade do Rio de Janeiro aqui encontrados.




SUMÁRIO



Apresentação

Interdisciplinaridade – transdisciplinaridade nos estudos urbanos
Maria Stella Bresciani

Cultura letrada, intelectuais e memórias populares
Laura Antunes Maciel

Engenharia, ordem e disciplina sobre a cidade:
Vieira Souto e os projetos de “casas para operários”
no Rio de Janeiro da década de 1880
Maria Letícia Corrêa

Os intelectuais, as habitações populares
e as políticas públicas na capital republicana
(fins do século XIX e inícios do século XX)
Magali Gouveia Engel

Olavo Bilac (1865–1918), um “poeta-sociológo”
em busca da modernidade na capital federal
Carolina Vianna Dantas

Desilusões de um provinciano: a capital federal
nas Recordações do escrivão Isaías Caminha
Leonardo Affonso de Miranda Pereira

Capital do bovarismo: modernidade, cidade
e memória em Lima Barreto (1881–1922)
Pedro Belchior

Novacap e Velhacap: Rachel de Queiroz
e a mudança da capital federal nos anos 1950
Natália de Santanna Guerellus

Sobre os autores e organizadores