Quero ser o que passa. A poesia de Lêdo IvoQuero ser o que passa. A poesia de Lêdo Ivo
Luiza Nóbrega
400 p. | 2011 | 14 x 21 cm | 1ª edição | 978-85-7740-108-6


R$42,00

Professora de Literatura Portuguesa na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Luiza Nóbrega é mais conhecida por seus estudos sobre Os lusíadas, com tese publicada no Brasil e em Portugal. Agora, com Quero ser o que passa, a pesquisadora retorna à Literatura Brasileira, dedicando minucioso estudo à poesia de Lêdo Ivo.
Como a passante baudelairiana, Lêdo encanta pelo dinamismo. Flâneur, realiza constantes viagens, participando ativamente da vida literária brasileira e internacional. Seu cosmopolitismo de pronto desmente o apodo de regionalista, com que liminarmente se batizaram muitos autores nordestinos que tentaram carreira no Rio de Janeiro de meados do século XX. Tal versatilidade reflete-se em sua obra vasta e diversificada, repartida em poesia, ficção, crítica, memória e tradução.
É comumente apontado como integrante da Geração de 45, juízo que, todavia, merece matizamento. Sua alegada adesão àquele ideário se justifica mais devido à contingência cronológica do que em virtude de congruência estética. Contra os epígonos do Modernismo de 1922, muitos poetas de 1945 cultuavam as formas fixas, a regularidade métrica, a concisão vocabular, dentre outros aspectos configuradores de uma escrita que se pode chamar de apolínea, cujo paradigma é João Cabral de Melo Neto. Embora infenso à diluição modernista e também exímio autor de sonetos, de odes e de elegias (palavras presentes em títulos de seus livros), Lêdo Ivo extrapola a fixidez formal e com grande frequência se lança, por exemplo, ao verso livre, longo e respiratório e até ao poema em prosa, sendo, por vezes, acusado de excesso verbal. Sintomaticamente, foi o primeiro tradutor brasileiro de Rimbaud, poeta interessado em “fixar vertigens”.
De extração subjetiva, a poesia do escritor alagoano possui nítida inclinação metafísica, rastreando balizas para a identidade fugidia, em permanente sondagem existencial dos mistérios humanos e cósmicos. Sua literatura interiorizada tem na pluralidade expressão possível das nuanças subjetivas: o tempo, por exemplo, se acumula em ruínas, ferrugens, escombros e em outros palimpsestos escavados pela inquietude do poeta. Disso também decorre a versatilidade expressiva, com os diferentes gêneros e formas e, no âmbito textual, com a ostensiva pluralização (seu primeiro livro intitula-se As imaginações). A forma não é, portanto, credencial do poema, mas a encenação do esforço de exprimir o indizível; deixa de ser formato para revelar-se gestação. Não por acaso, um de seus títulos é Acontecimento do soneto, conjugando o apuro formal à celebração encantatória.
É a essa poesia de amplitude extrema, deslizando das lacraias à lua, dos mangues à Via-Láctea,que Luiza Nóbrega se dedica com atenção e sen­sibilidade neste ensaio sobre Lêdo Ivo.

Gilberto Araújo*
* Doutorando em Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador da Academia Brasileira de Letras. Autor de Melhores crônicas de Humberto de Campos (Global, 2009) e Júlio Ribeiro (ABL, 2011), entre outros títulos.





Sobre a autora assim se expressou o ensaísta português Eduardo Lourenço:

“Talvez não seja um acaso se devemos a uma estudiosa brasileira de Camões, Luiza Nóbrega, uma das mais originais leituras do texto camoniano como texto de mitemas lidos em chave jungiana. A sua exegese pode suscitar estranheza ou perplexidade para quem está mais habituado a uma leitura classicamente culturalista. Navega atrevidamente e com audaciosa sintonia nas águas mitológicas de que Os lusíadas são entre nós espelho insuperável e não ainda superado. O seu texto é, ao mesmo tempo, glosa literal e transcendente dos mitos que funcionam no poema, como os referentes (angélicos ou simbólicos) que permitiram a Camões escrever a realidade mais terrena e a mais enigmática da aventura humana numa tradição clássica e intemporal. É nos mitos que o sentido da viagem – dessa que o poema evoca – está inscrito. A leitura de Luiza Nóbrega no seu Canto molhado navega nas mesmas águas que outros seus contemporâneos, como aquelas que o poema suscitou a um filósofo como Fernando Gil e a um poeta e crítico literário como Helder Macedo. E assim, sem concertação prévia, saímos dos “antigos mares” já muito navegados para outros espaços que só a visão mítica concebeu e a que deu uma forma ao mesmo tempo histórica e trans-histórica.
A água da realidade transfigurou-se em escrita que não se perde como ela no oceano no tempo."