Em 1813, Lord Byron asseverou: “Quisera estar bem o bastante para escutar esses intelectuais’ demarcando certa reserva a uma categoria de pessoas cujo trabalho se caracterizaria por relativa independência em relação às instituições estabelecidas, tanto políticas quanto sociais e religiosas. Talvez por isso, pouco mais de um século e meio depois, Jean-Paul Sartre tenha podido afirmar que, “produto de sociedades despedaçadas, o intelectual é sua testemunha”.
Os artigos deste livro, o terceiro de uma série em que se examinam influências e práticas de linguagem da literatura, partem das ligações entre a atividade literária, as funções do intelectual e o panorama da atual crise social, decorrente das formas contemporâneas de reprodução do capitalismo e dos efeitos da globalização. Trata-se, assim, de examinar, de um lado, o papel social da literatura, ou seja, a sua relevância para além do prazer de sua fruição, e, de outro, os modos em que caminham os intelectuais e as formações sociais, sob o pano de fundo da suposta correspondência entre o desespero humano e a busca de soluções que o atenuem.
Aprendemos a lidar com nossas esperanças e insatisfações? Encontramos coletivamente saídas para nossos impasses subjetivos? A ficção pode redefinir a realidade, cujos limites se revelam cada vez mais violentos e excludentes?
Franz Kafka, Theodor Adorno, Walter Benjamin e Hannah Arendt são exemplos de intelectuais que se inquietaram com o impacto da modernização em larga escala das sociedades ocidentais e procuraram contribuir com possíveis respostas aos dilemas então surgidos. Hoje, contudo, parece disseminar-se a incapacidade de realizar tal empreendimento crítico de forma eficaz, razão pela qual o silêncio dos intelectuais pode ser interpretado como o avesso do aumento de manifestações públicas consideradas irracionais, mas também como a aproximação deles, essencialmente econômica, aos estratos sociais dominantes.
Vejamos, então, se as contribuições aqui reunidas se mostram capazes de interrogar os desatinos do mundo e, nas palavras de Adorno em Minima moralia, desempenhar a “tarefa quase impossível [de] não se deixar imbecilizar nem pelo poder dos outros, nem por nossa própria impotência”.
Lucia Helena
Doutora em Teoria da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1983) e pós-Doutora em Literatura Comparada pela Brown University, Estados Unidos (1989). Professora Titular na Universidade Federal Fluminense. Pesquisadora 1-A do CNPq, fundou e coordena, desde 1995, o grupo de estudos “Nação e Narração’; vinculado ao Diretório Nacional de Grupos de Pesquisa do CNPq. Em livro, publicou: A cosmo-agonia de Augusto dos Anjos, Uma literatura antropofágica, Totens e tabus da modernidade brasileira, Escrita e poder, Modernismo brasileiro e vanguarda, Movimentos da vanguarda européia, Nem musa, nem medusa itinerários da escrita em Clarice Lispector e A solidão tropical: o Brasil de Alencar e da modernidade. Organizou para a editora Contra Capa os livros Nação-invenção: ensaios sobre o nacional em tempos de globalização (2004) e Literatura e poder (2006).
SUMÁRIO
Parte I - Introdução A literatura tem poder? Lucia Helena Parte II - Tramas da literatura, traumas da cultura De Gutenberg à globalização: do livro como resistência e mercadoria no Brasil Regina Zilberman A dor visível do poema: tramas de Ana Cristina Cesar Anélia Pietrani Porto de memórias: limite e palavra em José de Alencar Danielle Cristina Mendes Pereira Ramos Histórias do sujeito e os traumas da modernidade Denise Brasil Alvarenga Aguiar Parte III - Morte, poder, literatura Morte e afeto no inteiramente outro:
uma reflexão acerca de Bernardo Carvalho
Mario César Lugarinho
A casa assassinada: o grotesco e a morte Robério Oliveira Silva
Crise e cárcere: a truculência da modernidade
Sylmar Lannes El-Jaick Diadorim: a invenção do amor?
Wander Lourenço
Parte IV – Artes da literatura, artes do poder
Espelho mágico: literatura, imaginário e poder
Carmen Lucia Negreiros de Figueiredo
Margens do poder, margens do real:
Ursamaior, de Mário Cláudio
Dalva Galvão
A curiosidade impertinente
como paradigma da hybris política
Gustavo Bernardo
Formas da sedução social na literatura brasileira
Irenísia Torres de Oliveira
Parte V – Redes culturais, poder e literatura
A desconstrução narrativa
do discurso do poder em Os sertões Ronaldes de Melo e Souza
A casa e a terra: tempo-lugar (im)possível
Luanna Belmont
Rio, São Paulo, Tóquio, Viena e... onde mais
Raquel Queiroz
Poesia em tensão:
um revolucionário diante de Deus e dos homens
Matildes Demétrio dos Santos
Sobre os autores
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