Entre os espaços da vida e da arte, insiste esta pergunta: como e por que literatura? A arte, por seu poder, debruça-se sobre a vida; a literatura, em sua capacidade de simbolização, faz pensar a existência do que parece não existir; a palavra, ao permanecer, diz sim à vida e à arte.
Mais do que a descrição em torno das relações entre a arte e a vida política, econômica e social das comunidades, o poder de que se investe a literatura transforma o livro em um tênue espaço de uma escrita em que o sonho, a realidade e o pesadelo que ronda as épocas de crise se enlaçam e redesenham o que se pode (ou não) realizar. Embora os fios tecidos pela memória participem da história dos homens, tornamo-nos, na atualidade, herdeiros de um impasse, pois o que produzimos se depara com o volume e o giro inestancável de um mercado voltado para um consumidor cada vez menos predisposto à perda do contato com as imagens.
Vivemos tempos em que o capitalismo se apresenta como o único modelo disponível para os homens, como o caminho adequado para que o destino da humanidade se consume. Vivemos, portanto, uma época em que, em face da propaganda da desmemória, as grandes narrativas parecem se perder. Ainda assim, a literatura luta para preservar seu lugar de principal objeto formador de cultura. Aqueles que a ela se dedicam, sejam eles escritores, críticos ou leitores, continuam a impregnar os sentidos de violência, dor e solidão das vidas humanas (ou desumanizadas) com as tintas de quem afia a reflexão e desfia os nós críticos da história, sendo nesta direção que os textos aqui reunidos procuraram guiar sua contribuição.
Anélia Pietrani
Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (2004). Autora do livro O enigma mulher no universo masculino machadiano (Niterói: EdUFF, 2000). Integra o Grupo de Estudos "Nação e Narração", do Diretório Nacional de Grupos de Pesquisa do CNPq/UFF.
Lucia Helena
Doutora em Teoria da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1983) e Pós-Doutora em Literatura Comparada pela BROWN University, Estados Unidos (1989). Professora Titular na Universidade Federal Fluminense e Professora aposentada de Teoria da Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pesquisadora l-A do CNPq. Prêmio Esso/Jornal de Letras de Literatura (1969) e Susan B. Anthony Research Fellow (1988). Fundou e coordena, desde 1995, o grupo de estudos "Nação e Narração", vinculado ao Diretório Nacional de Grupos de Pesquisa do CNPq. Autora de inúmeros artigos em revistas especializadas no Brasil e no exterior. Entre seus livros, destacam-se: Nem musa, nem medusa: itinerários da escrita em Clarice Lispector (Niterói: EdUFF, 1997) e A solidão tropical: o Brasil de Alencar e da modernidade (Porto Alegre: Cinco Continentes, 2006). Em 2004, organizou para esta editora o livro Nação-invenção: ensaios sobre o nacional em tempos de globalização .
SUMÁRIO
Parte I - Introdução A literatura tem poder? Lucia Helena Parte II - Tramas da literatura, traumas da cultura De Gutenberg à globalização: do livro como resistência e mercadoria no Brasil Regina Zilberman A dor visível do poema: tramas de Ana Cristina Cesar Anélia Pietrani Porto de memórias: limite e palavra em José de Alencar Danielle Cristina Mendes Pereira Ramos Histórias do sujeito e os traumas da modernidade Denise Brasil Alvarenga Aguiar Parte III - Morte, poder, literatura Morte e afeto no inteiramente outro:
uma reflexão acerca de Bernardo Carvalho
Mario César Lugarinho
A casa assassinada: o grotesco e a morte Robério Oliveira Silva
Crise e cárcere: a truculência da modernidade
Sylmar Lannes El-Jaick Diadorim: a invenção do amor?
Wander Lourenço
Parte IV – Artes da literatura, artes do poder
Espelho mágico: literatura, imaginário e poder
Carmen Lucia Negreiros de Figueiredo
Margens do poder, margens do real:
Ursamaior, de Mário Cláudio
Dalva Galvão
A curiosidade impertinente
como paradigma da hybris política
Gustavo Bernardo
Formas da sedução social na literatura brasileira
Irenísia Torres de Oliveira
Parte V – Redes culturais, poder e literatura
A desconstrução narrativa
do discurso do poder em Os sertões Ronaldes de Melo e Souza
A casa e a terra: tempo-lugar (im)possível
Luanna Belmont
Rio, São Paulo, Tóquio, Viena e... onde mais
Raquel Queiroz
Poesia em tensão:
um revolucionário diante de Deus e dos homens
Matildes Demétrio dos Santos
Sobre os autores
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